A Queda Do Primeiro Ministro.

Diante dos eventos que vêm acontecendo no Reinado Caiçara esse texto é pertinente, veja-o na íntegra:

Numa manhã, acordei com a noticia matutina, sobre a queda do Primeiro Ministro. Não só a rádio peão, mas, também, toda a imprensa escrita, falada e televisada, estampava a alvissareira noticia em primeira mão, como furo de reportagem. Cheguei a acreditar, que estava sonhando e que tudo era surreal. Seria uma “Pegadinha do Faustão” ou uma brincadeira de mal gosto?

O Papa Bento XVI e o meteorito de tamanho imensurável, caíram. Bin Laden, Adolf Hitler, Sadam Hussein, Fidel Castro, muro de Berlim, os dogmas da igreja e tantas outras coisas despencaram na ladeira da história, mas o Primeiro Ministro não caia. Parecia uma rocha intransponível e estava mais firme que o prédio do Sérgio Naya. Por isso, não podia acreditar na queda prematura do Patrus, o Primeiro Ministro do Reino Caiçara.

Era um ministro de peso, não só físico, mas, também, de influencia política. Quem ditava as regras do jogo, tinha influência no Parlamento e na Câmara dos Comuns, era ele. Sabia, como ninguém, negociar com as empresas fornecedoras do reino, obtendo vantagens financeiras pessoais, sem deixar rastros. Com maestria, blindava a Rainha, a fim de que ninguém dela se aproximasse e, com isso, se fazia portador das coisas excusas do reino. Seus asseclas o tinham, não apenas como um fiel escudeiro de quinta categoria, mas, o que é pior, como um “deus de Olimpo”.

O que seria do reino e da rainha sem ele? Profetizou um escritor imortal de que Patrus, era o “Duco da Rainha”. Vide no “Dicionário do Aurélio”, o significado da palavra duco. Como iriam terminar as obras faraônicas, as barganhas de cargos, os banquetes palacianos, as licitações fraudulentas, as bajulações asquerosas, os enriquecimentos ilícitos, sem ele? Com a queda Patrus, creio que o reino estava se sentindo órfão de tudo isso. Patrus tinha na mão, a batuta que conduzia com maestria, as partituras de todas as pompas do reino.

Não foi à toa, que a Rainha, quebrando todas as regras da ética e da moral, o nomeou como Primeiro Ministro do Reino Caiçara. Traiu todos os seus súditos e vassalos, em nome dos interesses imorais palacianos, ao conduzí-lo ao cargo chave do reino. Creio que os conselheiros da corte, disseram para Soberana, que não se devia importar com a opinião do povo, pois ele – o povo – é apenas uma massa de manobra. Por todas as capitanias, não havia outro comentário, senão a queda prematura do Primeiro Ministro.

Aquela manhã nublada, traduzia o clima taciturno que pairava sobre o palácio real. Havia comentários de que ao tomar conhecimento da trágica notícia, a soberana real recolhera em seu aposento. Recolhida no silêncio do poder e bastante chorosa, a rainha meditava sobre a viuvez de quem a conduzia pelos corredores e pelos jardins do palácio. Era ele quem sussurrava aos ouvidos dela, sobre as decisões irreversíveis, como por exemplo, quem deveria ser conduzido ao cadafalso e submetido ao peso da guilhotina, por trair os interesses da corte.

Eu, um súdito obediente e sem ostentar título de realeza, estava preocupado com a saúde emocional da monarca e com o destino moral do reino, provocado pela queda inesperada de Patrus, o Primeiro Ministro. Pensei comigo: “Se o Ministro da Saúde do Reino caiu, por não participar de uma viagem oficial, por que o Primeiro Ministro não poderia cair?”, isso confortou-me por alguns momento. A queda poderia ter sido apenas um acidente de percurso, nada mais.

Preocupa-me a saúde da soberana. Do bem estar dela, depende todo o reino. Sei que ela se sentia confortável no braços de seu Primeiro Ministro. Nem o vice-rei e os demais ajudantes da corte, gozavam de tamanho privilégio. Era ele quem conduzia aos passeios reservados, por toda a extensão do palácio, além de ser seu confidente pessoal. Ninguém chegava à rainha, senão por ele. Era como Cristo, pois ninguém chegava a Deus, senão por Ele. Por isso que os bajuladores despudorados viam em Patrus, um mensageiro direto de Deus ou da rainha… sei lá..

Nem eu e nem todos os habitantes do reino, queriam acreditar na queda do Primeiro Ministro. Poderia haver uma invasão por parte da ganância dos reinos vizinhos ou, quem sabe, um herdeiro remoto, querer o trono. Tudo isso não passava de conjecturas, mas causava medo. Sem um articulador político de tamanha envergadura, como o Primeiro Ministro, tudo isso seria possível.

São por essa e por outras razões, que acordei apreensível com tal noticia. Como eu poderia certificar-me da veracidade do fato? Teria sido traído por um de seus asseclas, a quem ele ajudou tanto? A criatura teria devorado o criador? Então, fui até a frente do palácio real, onde ficava a entrada principal. Havia uma banca de revista, onde um jornaleiro experiente e desgastado pelo tempo, sabia de tudo que dizia a respeito do reino. Muito discreto e reservado, só conversa sobre determinados assuntos em quem confiava. Eu era uma dessas pessoas privilegiadas.

Ao conversar com ele sobre o assunto e ao ver em meu rosto tamanha preocupação, procurou acender um cigarro cubano, deu uma golada num vinho portugu es e depois de esboçar um sorriso descontraído, disse-me: “Fique tranqüilo, meu filho. Isso foi apenas um queda acidental, ao subir a rampa do palácio real. Algumas escoriações no joelho, sendo atendido no Hospital Sirio-Libanes, por ordem de Vossa Majestade. Ela não queria que ele fosse atendido na UPA. Sabe como é, não é mesmo, meu amigo?”, e sorriu descontraidamente.

Voltei para casa, mais tranqüilo. Sabia que tudo não passou de um mal entendido. Não foi dessa vez.

ADAO DE SOUZA RIBEIRO
Cronista, escritor e poeta

POSTADO PELA EQUIPE DO BOCA DE RUA. ESSES SÃO OS NOSSOS COMANDANTES.

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