O BOTECO E O REINO.

BUTEKO11g

Nunca fui adepto a frequentar botecos, isso por uma série de razões. Sinto-me deslocado e, portanto, evito esses lugares. Não gosto de me expor e a linguagem praticada ali, não me agrada. Os assuntos desenvolvidos, não me acrescentam em nada, tanto no conhecimento, quanto no amadurecimento espiritual. Embora não gosto, respeito os assíduos frequentadores. Para eles, é uma válvula de escape; para mim, uma tortura. Sinto-me incomodado, só isso.

Entre um gole e outro de cachaça, discutem os problemas políticos e, em especial, escalam o time do coração e demitem o técnico. Não poupam comentários, sobre o amigo corneado pela esposa gostosa. Gastam o precioso tempo com assuntos desconexos. A medida que o tempo passa, os rostos se transfiguram e alteram a voz, pelo efeito do colateral do álcool. O cheiro insuportável de cigarro contamina o lugar. Escarradas no chão, demonstra o grau de higiene dos clientes.
Para esquecerem as amarguras da vida, descarregam suas iras nas tacadas de bilhar. Querem jogar na caçapa, as frustrações de não terem sido exemplares chefes de família e cidadãos. De repente, do nada se desentendem. Iniciam discussões e empurrões, separados pela turma do “deixa disso”. Dinheiro para voltar a encher o copo não falta, pois há sempre um filho de Deus, disposto a colaborar com o “amigo de boteco”.

No entanto, ali também se pratica a cultura raiz. Modas de viola, declamações dos poemas de cordel, lamurias de amor perdido, planos inacabados ou esquecidos na gaveta da vida. Amizades momentâneas que duram até o último gole ou no fechar das cortinas de um espetáculo que reinicia no dia seguinte, sem hora para começar ou terminar. O dono da xiboca, atordoado de sono, suporta tudo aquilo, atrás do balcão.

Um dia desses, entrei num desses bares, a fim de comprar apenas uma latinha de refrigerante, quando vi de relance, um grupo de amigos, comentando e discutindo o destino do reino e, em especial, o futuro incerto da monarca. Corre à boca solta e não na boca de rua, que os dias da rainha, estão contados. Lembro-me, certa feita, que profetizei isso, mas ninguém deu-me ouvidos. O povo insatisfeito, pede que ele abdique do trono.

Já começam as manifestações de rua, os primeiros gritos de um novo tempo, tem seus embriões implantados na insatisfação, diante dos desmandos e da corrupção que assola o reino. Nas províncias, os vassalos se organizam e saem às ruas, independentemente de suas convicções políticas. Escondidos atrás dos muros palacianos, a monarca, os ministros, o segundo escalão e os bajuladores de plantão, não percebem ou não querem ver a realidade das ruas.

No desespero, a rainha vai à padaria, recebe a plebe na sala oval do reino, vai às vilas pobres e posa para a lente dos paparazzes, contratados por tablóides sensacionalistas. No desespero, corre atrás de uma popularidade que, antes, nunca deu importância. Sempre ao lado do esposo, o Conde Tupiniquim, esboça uma simpatia esforçada e um sorriso amarelo de falsidade. A saúde em coma profundo e as ruas esburacadas, que levam a lugar nenhum, são as provas fiéis do descaso da administração real.

Nos bares fétidos, cujos membros da realeza, não sabe onde fica, tem-se a temperatura exata da febre e da doença do reino. Enquanto nobres se embriagam com o poder, a plebe se entorpece com a realidade nua e crua do dia a dia. Gritam por melhorias, mas as suas vozes não ultrapassam as prateleiras de bebidas enfileiradas e envelhecidas, pela poeira do tempo e do esquecimento. Sei que o grito ensurdecido das ruas, tem seu nascedouro, na mesa de bar, onde o roceiro e o letrado se unem, por um só ideal: um reino livre e soberano.

A rainha cambaleia, com as pernas fracas do reino. Assim como os alcoólatras inveterados, que andam de bar em bar, a nossa monarca caminha desesperadas pelas ruas desertas do reino. Solitária e cercada apenas pelos bajuladores da corte, ela ainda acredita que é possível recompor a sua popularidade e, portanto, fugir da guilhotina em praça pública. Um dia, pedi a Deus que salvasse o reino e, outra oportunidade, que salvasse a rainha.

Ao sair do boteco, ouvia as vozes fracas e desconexas de seus frequentadores, buscando força e alento para se fazerem ouvidos, dentro dos muros palaciano. Lamento dizer que, na mesa de bilhar, dentro de um bar esquecido pelo reino,ao final do jogo político e não de bilhar, a rainha será eliminada nunca tacada, como “nunca antes nesse país” se viu.
No boteco, a derrocada da rainha, entre um gole e outro, toma-se com mel e limão.

JOGO DE BILHAR

Peruíbe SP, 15 de março de 2015 –

ADÃO DE SOUZA RIBEIRO
Colunista, Escritor e Poeta

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